segunda-feira, 20 de julho de 2009
A uma estrela
- É minha! - afirmei.
Hoje tenho a certeza de que apenas seu reflexo ilumina mais do que eu possa controlar.
- Do céu e ela me enxergou - pensei.
- Seja feliz. Eu preciso que assim o seja. - me disse um dia.
Um surto metalingüístico num esboço de conto. Interminável. Mais espaçoso do que caberia agora no que posso escrever. E eu a amo. Cativou-me.
Minhas Memórias de Lobato - Luciana Sandroni
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Plano Insípido
Todos aqueles que porventura ali tentavam se estabelecer, acabavam indo embora, um por um. Assim que percebiam que a vida por aquelas bandas não tinha cores, partiam.
É compreensível tal fato, já que, naquela época, as pessoas aprendiam desde cedo a perseguir seus sonhos, pois este era o real motivo de se viver. E sonhos são geralmente coloridos.
Esse valioso conhecimento não teve como ser passado às crianças de uma pequena casa amarela, situada no mais afastado e inóspito recanto de Plano Insípido - como o lugar ficara conhecido.
Os pais de Alice e David morreram de uma doença misteriosa e fulminante antes de terem a chance de ensinar a seus filhos a lição dos sonhos ou o caminho para fora de Plano Insípido. Os dois irmãos cresceram tendo apenas um ao outro e acreditando que o fatídico lugar onde viviam era tudo o que podiam esperar da vida. Desse modo, criaram razões distorcidas para viver.
Alice era mais nova que o irmão. A menina de lindos cachos dourados adorava explorar cada pedacinho de Plano Insípido. De uma personalidade impetuosa e pura, não cabia em si quando encontrava algo novo com que pudesse interagir.
- Deve ser adorável ser Lua! Viver de noite e iluminar... – divagava Alice com a Lua.
E Lua não conversa a não ser, claro, com Alice:
- E é sim, exceto pela parte da noite. Eu queria também o dia.
- Acho muito egoísmo seu, Lua.
- E o que pode achar ou saber uma menina tão pequena, que pouco ou nada conhece!?
- Sei o que posso sentir.
David falava pouco e expressava-se por suas ações. Aparentava ter mais idade do que realmente tinha, talvez porque se sentia obrigado a parecer mais velho. Na realidade dele, Alice o pertencia. Ele a protegia.
- Espere um pouco. – interrompeu Alice a conversa que estava tendo com um pássaro - Tenho um banquinho lá dentro. Vou buscar para que eu possa subir aí em cima. Assim, vou poder te escutar melhor!
David espiava de longe, como sempre fazia. Na verdade, Alice nunca estava sozinha. O irmão a perseguia, em silêncio, para aonde quer que ela fosse. Ele acompanhava apreensivo, enquanto Alice subia na árvore.
- Pois é seu Pássaro, ouvi dizer que vocês, pássaros, são livres porque podem voar. É verdade?
- Claro! Mesmo quando o vôo é curto, talvez por estar dentro de uma gaiola.
David não gostara nada do que tinha visto. E se ela caísse lá de cima? Iria quebrar... E razões quebradas não servem para se viver. Sem que Alice pudesse perceber, naquele mesmo dia, David despedaçou e queimou o banquinho que a irmã havia usado. Escondeu também as cinzas.
- Agora não vou mais poder subir na árvore... Todos os outros móveis daqui de casa são muito pesados para eu poder carregar. Tem certeza que era aquele banquinho de madeira?
- Tenho. Um pássaro levou embora.
E eram dias de silêncio em Plano Insípido, a não ser por Alice que, a cada descoberta, uma paixão iniciava. Suas amigas flores, segundo David, foram arrancadas e levadas para longe por um vento ciumento. O mesmo vento que ousara tocar os cachos de Alice. A árvore mais alta havia sido derrubada por um raio e já não tinha mais lugar onde pendurar o balanço.
Alice já quase não falava, pouco sobrara. “Nuvens são muito chatas. Mudam de humor como mudam de forma. Nunca se sabe o que se pode esperar delas.”, pensava Alice. “Chuvas e tempestades são passageiras. Não há como cultivar alguma amizade com coisas que duram tão pouco.”, continuava.
Até que um dia, uma surpresa: uma borboleta, desavisada sobre o sumiço das flores, pousara na janela do quarto de Alice. Ainda que um pouco incrédula naquilo que via, a menina já se pusera a conversar com a borboleta.
- E de lagarta virou borboleta? Mas é uma mudança muito grande! Deve ter doído muito...
- Nem me fale! Mas sem a metamorfose, eu não teria como possuir asas.
- A senhora pode esperar aqui um pouco, até que eu vá buscar um copo de água, dona Borboleta?
- Fique à vontade. Tenho algum tempo ainda antes de escurecer.
Um sentimento ruim percorreu o coração de Alice. Depois de tanto tempo sem ter alguém interessante com quem conversar, sua amiga iria embora em breve. Alice entrou no quarto escondendo um copo vazio. Levada por um impulso incontrolável, aproximou-se da borboleta e rapidamente a prendeu dentro do copo. O inseto se debatia e era como se gritasse para que o libertassem. Não dava mais para escutar, pois aquela redoma de vidro impedia. Mesmo sabendo que não poderia mais conversar com a borboleta, Alice se resignara com a possibilidade de ao menos contemplá-la.
Alguns dias se passaram, e David enchia-se de ciúme ao observar a irmã: imóvel, olhos brilhando, observando a borboleta dentro do copo. Ele não parava de pensar em um modo de se livrar da intrusa que roubara a atenção de Alice. Mas seus planos sempre esbarravam no fato de que Alice jamais saía de perto do copo. E assim passou algum tempo.
Numa manhã qualquer, a borboleta parou de se mexer. Alice demorou a notar porque, estranhamente, um reflexo luminoso vindo da janela do quarto brilhava no vidro do copo. A menina olhou mais atentamente e finalmente percebeu que a borboleta havia morrido. A essa altura, David já esboçava em seu rosto um aspecto de satisfação e alívio. Alice então começou a se lamentar profundamente, até que se distraiu com o brilho. Retirou o copo e seguiu o reflexo até a janela.
Em Plano Insípido, o sol também era acinzentado e talvez por isso os irmãos nunca o tivessem percebido. Entretanto, naquele dia, o amanhecer cintilava como nunca havia acontecido. Alice se deslumbrou com tamanha grandeza e falou baixinho consigo mesma:
- Mas como pode? Ele parece estar muito longe, por isso não percebi antes. Algo que consegue brilhar tanto, mesmo estando tão distante, deve ter muita coisa especial para contar!
Alice se inclinou para fora da janela, numa tentativa de escutar alguma coisa que o sol viesse a falar. Não ouviu nada. Saiu de casa e foi caminhando em direção ao nascente, sempre atenta a qualquer ruído. Foi andando e andando atraída por alguma coisa que, dentro dela, parecia muito com esperança.
David acompanhava a irmã com os olhos, de dentro de casa. Olhava tão fixamente para ela, que sequer percebera o que tinha atraído a atenção de Alice. De qualquer forma, ele achara que não tinha com o que se preocupar, já que houvera acabado com qualquer coisa que pudesse significar algum perigo para a irmã. Ele esperou Alice na porta de casa naquele dia, mas ela não voltou. Vários dias se passaram. Alice não voltaria mais. David percebeu que não teria mais sua razão. Parou então de viver. Não morrera, mas também não viveria novamente.
Alice continuava sua peregrinação em direção ao sol e ao que este tinha a dizer. Já tinha andado tanto e nem percebera que há muito estava fora de Plano Insípido. Esquecera de praticamente tudo. Só o que a movia era o objetivo de ouvir o sol. Continuou caminhando. Acredita-se que Alice virou estrela. E esta é apenas a metade da distância que precisaria percorrer.
quarta-feira, 11 de março de 2009
A Calma
- Não dá... Tou muito nervosa.
- Desse jeito vou acabar cortando a minha mão.
- Você reclama muito. Não são seus pulsos que estão em jogo...
- Não gostei do tom. Acha que me orgulho em fazer isso? Na verdade, mal consigo acreditar que me pediu para fazer uma coisa assim... Vamos tentar de novo. Pronta?
- Ector, por favor me perdoe...
- Não é hora de falar sobre isso... Você não consegue ver sangue, senão desmaia,
é só. Pra mim é o suficiente.
- Vou sentir muito a sua falta, gostaria que soubesse.
- Já falei que não é hora. Já não conversamos sobre isso!?
- Sabe a Sabrina?
- E lá vamos nós outra vez... Que tem a Sabrina?
- Eu que espantei!
Os dois riem.
- Não acredito nisso!
- Disse que eu era sua namorada e que, se ela se aproximasse de você de novo, o cachorrinho dela poderia qualquer dia desses nunca mais voltar pra casa.
- Você é diabólica...
- O que poderia fazer? Eu já te disse: nunca subestime um amor platônico.
- E foi por causa desse seu amor platônico que resolveu salvar a minha vida?
- Não, já tinha desencanado de você naquela época... Ele tinha aparecido e tal... Eu só tava no lugar errado na hora errada.
Os dois se olham nos olhos pela primeira vez desde a hora em que se trancaram no quarto e sorriem de forma doce e discreta. Hellen percebe que os olhos de Ector estão úmidos e que suas mãos tremem.
- Ver essa navalha afiada me fez lembrar daquela noite...
- Não diga! E olhe que quem ficou com cicatriz fui eu, hein.
- Não devia brincar assim. Eu nunca agradeci por aquilo...
- Verdade?! Quer dizer que toda essa lealdade é gratuita? Sei bem que se você não fosse agradecido, sequer estaria neste quarto.
- E o meu amor onde fica? Nos amamos, não é, Hellen?
- Prometo que vou ficar parada agora. Lembre-se que a idéia é que eu fiz tudo, essa é a única verdade.
- Suas pupilas estão dilatadas... Um vislumbre de esperança?
Hellen começa a chorar compulsivamente. Gritando:
- Nossos planos não deram certo, não é?! Eu me odeio por isso!
Ector abaixa a cabeça e chora silenciosamente, com a voz em saltos:
- Eu não consegui te proteger, não estava lá!
Hellen se debate em cima da cama, ainda chorando e gritando incontrolavelmente. Ector em pé, deixa a navalha cair no chão. Abaixa-se para pegar. Lembra do real motivo de estarem ali. A feição dele se modifica, parece recuperar a serenidade.
- Eu não posso! Não agüento a idéia de que essa coisa vai rasgar meus pulsos!
Ector se inclina em direção a cama. Aproxima o rosto dele da face esquerda de Hellen. As lágrimas nos rostos dos dois se misturam. Hector lhe sussurra ao ouvido:
- Mas conseguiria viver com o fato de que pessoa que a estuprou não pode mais pagar pelo que fez, não é? Que ele foi contemplado com uma morte rápida e misericordiosa, enquanto a sua doce e merecida vingança, planejada por anos, não pôde sequer ser iniciada...
Cada um dos músculos de Hellen entra em paralisia e relaxamento. Em questão de segundos, sua respiração volta ao normal e seu coração não parece mais querer sair pela boca. A calma parece ter sido recuperada. O rosto ainda está molhado, mas já não há mais lágrimas em seus olhos. Ela os fecha.
Ector desfere um único golpe de cada vez, para cada braço. Delicadamente, deposita a lâmina sobre a mãe esquerda de Hellen. Sai e fecha a porta do quarto e, enquanto caminha, se pergunta qual será o método que vai usar nele mesmo quando chegar em casa.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Vampira
Carol era linda, rosada e de olhos brilhantes. O motivo: sobrevivia da presença de quem estava a seu lado. “Miguxo_36 acaba de entrar” – exibia a tela do computador. Carol sorria. Ouvia-se um som de rock e na tela do celular aparecia: “Grego Amigo chamando”. Lá ia Carol, saltitante, atender. Se a capainha da porta tocava, Carol sempre estava por perto e disponível. Por necessidade, claro, mas ela não tinha consciência disso.
Um dia a mãe de Carol levou seu celular por engano, fazendo com que ela deixasse de ler imediatamente uma mensagem enviada pelo CurlyFriend que dizia “Estarei online as 4. bju”. Uma pena que já eram dezenove e trinta: Carol certamente perdera o bate-papo. Conseqüência? Odiou a mãe o mais que pôde até se cansar, ou melhor, até que a Sininha ligasse avisando que chegaria em meia hora.
Carol, então, acabou percebendo que mesmo sem ter conseguido teclar com o CurlyFriend, coisa que nunca havia acontecido antes, mantivera relativo esforço emocional para ficar bem sozinha, enquanto esperava Sininha chegar. Curiosa e impulsiva como era, Carol resolveu descobrir qual era a dessa tal de solidão.
Num dia bastante ensolarado, fechou todas as cortinas, pregou um aviso de “NÃO PERTURBE!” na porta e se trancou no quarto com alguma comida e água no intuito de ficar lá por uma semana. O suficiente para provar para ela mesma que conseguiria seguir em paz e só. Então, ainda que hesitante, desligou o computador e o celular. Um tempo passou – vinte minutos – e ela decidiu vestir-se de preto. Fez isso. Mais algum tempo e estava se maquiando. No fim do primeiro dia, acabou desenvolvendo um tique: balançava a perna esquerda incansavelmente.
Concentrou-se no tique, tanto que não percebeu quando o pai bateu violentamente na porta. Já no segundo dia, Carol cansou de olhar os espasmos de sua perna. Procurou outra coisa para se distrair. Voltou-se para o espelho. Seu reflexo lhe parecia mais nítido. Aproximou-se mais ainda do espelho. Primeiro viu que a maquiagem havia borrado, e se borrara é porque havia chorado.
- Mas como?! – disse Carol baixinho.
Na verdade, fazia tanto tempo que não chorava que nem sabia mais como era, por isso não percebeu as lágrimas. Sentiu-se ainda mais incentivada: “Que outras sensações deixei para trás e não percebi?!”, refletiu.
Três dias passados e Carol continuava olhando fixamente para o espelho. Não lembrava de nenhum outro momento em que se vestira de preto.
- Carol, abre a porta, filha! – gritavam os pais lá fora, preocupados.
Batiam e batiam, mas era inútil. Carol já havia feito outras descobertas mais interessantes que ouvir gritos: ela era o reflexo e a Carol de fora era o espelho – apenas refletia o humor dos outros. Revoltada por de repente achar que não vivera uma vida própria, esmurrou o espelho como que na intenção de ferir a si própria. Acabou cortando a mão e os pais, ouvindo o barulho dos estilhaços, arrombaram a porta. Ao verem o sangue pensaram que Carol tentara se suicidar. Agarraram-na e Carol se debatia e gritava, pois não queria sair dali. Gostaria de continuar aprendendo mais sobre ela mesma. Acabou desmaiando.
Uma semana numa clínica psiquiátrica, recebendo visitas, com celular e laptop sempre à disposição e Carol já estava completamente corada e sorria como se nada tivesse acontecido. No dia em que Carol voltou para casa, ficou sabendo que algumas das pessoas que a tinham visitado na clínica estranhamente passaram mal. Além disso, outra coisa havia mudado: perdera o brilho nos olhos. Só não lembrava por que.